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Crianças e Herodes ontem e hoje - Ponto de Vista Semanal - Frei José Fernandes, OP

Confesso que fiquei em dúvida sobre o que abordar neste último Ponto de Vista do ano, tendo em vista a imensidão de assuntos relevantes que temos. Resolvi convidar você, leitor/leitora, para refletirmos a respeito do martírio das crianças pelo terrível e sanguinário governador da Judeia, Herodes. E também para refletirmos sobre o martírio que as crianças têm sofrido hoje. Mas, temos também coisas muito boas no quesito crianças, como é o caso do protagonismo das crianças Sem Terrinha. Embora preocupo-me com a violência contra as crianças, animo-me com o protagonismo das crianças Sem Terrinha, porque compreendo que criança é presente e não futuro da humanidade.


 

Na narrativa do evangelista Mateus, Herodes ao perceber que havia sido enganado pelos magos, ficou uma fera e enviou seus capangas, ordenando-lhes que matassem todas as crianças – de dois anos para baixo – de Belém e da vizinhança. Nas narrativas bíblicas, a simplicidade das crianças é contraposta à crueldade dos poderosos. Duas realidades, um mesmo ambiente: as crianças, frágeis, simples, inocentes e indefesas e o prepotente Herodes, usurpador do poder político numa, como chamamos hoje, “terra sem lei”. Este acontecimento me remete à violência que atinge as crianças no Brasil, hoje. Aliás, o “Atlas da Violência 2025”, organizado pelo IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, nos informa que os índices de violência contra a criança no Brasil são altos demais.


Voltando lá na Palestina e no ontem: é bom lembrar que este é o ambiente do qual Maria e José tiveram que fugir para o Egito, com o menino Jesus. Tomando como referência a população daquela região naquela época, apesar da história inflar os números, o massacre foi grande! Faraó e Herodes de ontem. E os de hoje?! Sim, em nossos dias, eles são sobretudo coletivos, sistêmicos, compõem a lógica capetalista.

 

O que me dói muito – além deste fato, naturalmente – é o fato de que as matanças de crianças (ordenadas pelos Herodes modernos) continuam, dentro e fora do Brasil! Em nosso país, crianças continuam sendo mortas por desnutrição e fome (apesar da excelente e incansável atuação da Pastoral da Criança em quase todos os rincões Brasil afora) e também por maus-tratos, prostituição e venda de órgãos.


 

Como disse no início deste Ponto de Vista, a violência contra a criança me deixa indignado. Mas, o protagonismo das crianças Sem-Terrinha, do MST, que se formam, se conscientizam e lutam por Terra, por direitos e por dignidade, reafirmando o seu protagonismo no aprendizado à defesa da natureza, me dá um fôlego novo. Poucos dias antes do Natal, fui testemunha – mais uma vez – desta mistagogia junto ao Acampamento de Sem-Terra Dona Neura, no município de Hidrolândia, aqui em Goiás.

 

E lá fora, hein? Cito aqui apenas – e já é muito – os horrores da guerra na Faixa de Gaza e na Ucrânia; as crianças são as mais afetadas. Foram mais de 20 mil crianças assassinadas ali por desnutrição, fome e bombas, nos últimos tempos! De cada três crianças, duas foram separadas de suas mães e seus pais e levadas para outros países. Ora, assim como o sangue de Abel, assassinado por seu irmão Caim, o sangue dessas crianças também grita da terra.

 

Leitor e leitora, desejo-lhes um abençoado 2026. Estou saindo de férias; retorno com o Ponto de Vista, dia 26 de janeiro.


Frei José Fernandes, OP, é frade dominicano, militante de Direitos Humanos, assessor de movimentos populares e de CEBs.


📻 📺 O “Ponto de Vista” é, originalmente, um programa de rádio, veiculado pela Rádio Difusora de Goiânia, às segundas-feiras de manhã, e pela TV Causas da Vida, no YouTube, às segundas, a partir das 16h. Inscreva-se no canal e fortaleça nossa missão.

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