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Descubra a Inspiração na Vida e na Obra de Dom Tomás Balduino

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O Dom da Felicidade

As lutas e os voos de Dom Tomás Balduíno
POR ANA HELENA TAVARES

Sinopse

Este livro-reportagem não é uma biografia tradicional, mas sim uma "causografia". A obra mergulha nas lutas e na trajetória de Dom Tomás Balduíno, frade dominicano que foi bispo da Diocese de Goiás por 30 anos, revelando um dos personagens mais fascinantes, corajosos e combativos da história recente do Brasil, cuja voz se ergueu de forma potente contra a ditadura militar e a favor dos mais excluídos.

Conhecido por pilotar seu próprio avião — apelidado carinhosamente de "fusca voador" — para prestar assistência médica, apoiar demarcações e socorrer indígenas e camponeses em áreas remotas, Dom Tomás foi um homem de ação que uniu com maestria a fé à política, "a sacristia e a praça".

*Destaques da obra:*

*   *As Asas da Solidariedade:* Descubra como o bispo aviador transformava seu pequeno avião em uma UTI no ar para salvar vidas e desafiava o perigo — sofrendo até atentados e sabotagens — para estar sempre próximo das aldeias indígenas e dos necessitados.
*   *A Luta pela Terra e pelos Povos Originários:* Acompanhe a atuação fundamental de Dom Tomás como um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Ele foi uma voz implacável contra o latifúndio ("maldito latifúndio") e o trabalho escravo, defendendo que os indígenas e os sem-terra fossem sujeitos de sua própria história.
*   *Resistência nos Anos de Chumbo:* Relatos emocionantes de como ele driblou a repressão usando o próprio nome de batismo como codinome "Paulo", enfrentou pistoleiros armados para proteger camponeses e transformou a Diocese de Goiás em um porto seguro, abrigando perseguidos políticos durante a ditadura militar.
*   *Uma Educação Libertadora:* A aplicação da pedagogia de Paulo Freire na Diocese de Goiás e a crença em um "Jesus sem traumas", mostrando um lado de Dom Tomás profundamente humano, focado em empoderar o povo pela educação ("A bíblia é a universidade do povo").
*   *O Profeta do Bem-Viver:* Sua visão de "ambientalista integral", que via na forma de vida indígena um novo paradigma de felicidade coletiva, rejeitando o consumismo desenfreado em favor da harmonia com a "Mãe Terra".

Baseado em rica pesquisa documental e entrevistas com figuras históricas, amigos e familiares, *O Dom da Felicidade* é uma leitura inspiradora que nada contra a corrente das histórias não contadas do Brasil. É um convite para reacender a esperança e lembrar, nas palavras do próprio Dom Tomás, que *"Direitos Humanos não se pede de joelhos, Exige-se de pé"*

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DOM TOMÁS, O SENHOR SE LEMBRA?

Lembra de mim? Eu sou Maria Antônia de Jesus, mas todo mundo me chama de “Maria Toró”. O senhor me conhece há muito tempo. Quanto? Nem sei direito, que com 64 anos, e depois de criar quatorze filhos, a cabeça, às vezes, anda meio lesa... Eu sou aquela mulher que, numa noite de domingo, lá na Igreja de Santa Rita, o senhor viu, sozinha no derradeiro banco da igreja, chorando. Eu chorava e não queria ver mais ninguém, nem falar. Tinha vindo da roça e nunca tinha conhecido padre nenhum. Tinha até medo de padre porque contavam umas histórias de um padre bravo que andou fazendo uma desobrigas lá pelo Engenho Velho onde eu e meu marido éramos moradores. Quando eu levantei a cabeça, o senhor estava junto de mim e falava tão calmo e a voz tinha um tal dom de bondade que eu confiei de falar. E o senhor perguntou: - Por que você está chorando, minha filha? Aí contei tudo o que eu tinha passado, como a vida da gente que veio do campo para a cidade é uma vida estrangulada... E sem arrimo. E o senhor me disse que eu tinha razão de chorar, mas não precisava só chorar. Podia reagir e fazer por onde sair daquela situação. E o senhor foi para mim como um pai de família que põe a enxada na cacunda e vai na frente e a filharada atrás. O senhor parou um tempo demorado só para me escutar, e eu não era ninguém. Eu não via, não ouvia, não tinha respeito por mim mesma. E o senhor foi como uma luz que Deus do céu mandou para fazer a gente olhar, escutar e compreender. Para mim e para muita gente que eu conheço, o senhor abriu nossa vista para a gente enxergar nossos direitos... abriu nossos ouvidos, nosso coração para a gente amar... O senhor se lembra? Para nós, padrinho é quem introduz a pessoa na vida de Deus. O senhor foi nosso padrinho. Foi e é para sempre. Eu acho que todo pobre que conheceu o senhor levantou a vista. O senhor se lembra de como explicou para nós o valor da terra e da reforma agrária? Desse modo, indo assim pelo que é básico na vida para a gente sobreviver, o senhor me fez descobrir até o valor do meu batismo. E a partir daí eu entrei para o Grupo de Evangelho. Eu acho que, em Goiás, fui das primeiras pessoas a se organizar em grupos para falar do arroz do Reino de Deus e do timbete que o inimigo joga no campo. O senhor se lembra de como nos animou para partir para uma terra que pudesse ser nossa? Muita gente dos grandes da cidade e de fora tinha ódio do senhor, mas o senhor nunca desacorçoou de estar com o pobre. O senhor se lembra? A sua casa era sempre cheia de gente e era sempre gente pobre que o senhor apoiava. A gente ocupou a terra (fazenda) do Mosquito e pediu seu apoio. Quando eu vi o povo na terra, achei que com a experiência que tinha não podia ficar ali só para mim. Deixei o pessoal lá e fui ajudar o pessoal a ocupar o Rancho Grande. E depois fiz a mesma coisa no Acampamento Europa e finalmente no São Carlos. Em toda essa luta, toda vez que o pessoal se sentiu ameaçado pelo polícia ou por jagunços, a gente nunca desanimou porque a gente contava com seu apoio. A fé em Deus tinha como se fosse um sinal: a fé em Dom Tomás

O senhor se lembra quando o Silvando foi preso na Estiva? Amarraram o Silvando como se amarra um animal, e o levaram. Nós, junto com o padre Felipe e Marcelo e a irmã Zenaide, fizemos uma procissão até a delegacia. E o senhor entrou na delegacia e o resultado foi que o delegado o liberou. O senhor se lembra, Dom Tomás? O senhor plantou uma semente e o que, neste seu aniversário de 80 anos, eu posso lhe dizer é que nós vamos cuidar para que essa semente vire árvore e fecunda. Mesmo se, nos tempos de hoje, muita gente até a Igreja andam perdendo o rumo, e eu não sei se a gente conta com os bispos do mesmo modo, o senhor plantou um semente... Que Deus recompense o senhor por esse plantio. O senhor se lembrou de nós. Agora, pode ter certeza: o Deus dos pobres vai sempre lembrar do senhor. Que ele lhe dê muitos anos de vida e saúde. MARIA ANTÔNIA DE JESUS, CONHECIDA COMO MARIA TORÓ

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