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Natal: morada de Deus na Terra - Ponto de Vista Semanal - Frei José Fernandes, OP

Card Ponto de Vista

O que é o Natal e em que o transformamos? Os detalhes mais originais sobre o Natal encontramos nas narrativas dos evangelistas Lucas e Mateus, que contaram com a ajuda de suas comunidades. Natal é a festa de Deus que se fez e continua se fazendo gente; do Deus que veio morar no mundo. Muito nos ajuda o que o santo do Araguaia, Pedro Casaldáliga poetiza: “Na oficina de José, Deus se fez carne, se fez classe, se fez pobre, se fez índio, se fez gente”. Deus tem um rosto, Ele não vem como um anônimo. Já quase no final de sua missão, Jesus vai, mais uma vez, nos lembrar qual é o seu rosto: "tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber; era estrangeiro, e me hospedaste. Estava nu, e me vestiste; adoeci, e me visitaste; estive na prisão, e foste me ver".

 

Pois é, lá em Belém, as portas se fecharam para o casal e aí, Maria e José ocuparam um pedacinho de chão e, ali, deram à luz o filho Jesus. Aqui em Goiânia (e em quase todas as outras cidades de porte médio para cima) falta muito lugar para a Sagrada Família, que vive sem moradia digna e sem-terra.

 

Neste clima natalino e em sua última audiência jubilar do Ano Santo, antes de ontem o Papa Leão 14 condenou a concentração da riqueza.  Muitos poderosos – disse ele – “não ouvem esse clamor: a riqueza da terra está nas mãos de poucos, muito poucos, cada vez mais concentrada – injustamente – nas mãos daqueles que muitas vezes não querem ouvir o gemido da terra e dos pobres”.

 

Hoje, além do presépio, o Natal, em grande parte se transformou em ceias, consumos e viagens! Tem também a tradição de muitos presentes e quase nada de presença! E transformando o seu coração em uma manjedoura, Leão 14 nos propõe que convidemos “para a ceia de Natal uma família pobre”, como forma de acolher Jesus.

 

Temos tanta gente que nos ajuda, nos ilumina sobre o que é o Natal. Por razões óbvias, fico com o meu querido irmão Padre Júlio Lancellotti – a quem aproveito para manifestar a minha solidariedade. Ele disse, há menos de uma semana: “me incomoda muito as cidades cheias de luzinhas iluminadas, porque os lugares que estão mais iluminados são os lugares onde Jesus não poderia entrar, porque não é como os Evangelhos nos falam d’Ele, Ele não tinha lugar. Vejam (continua Lancellotti): nas cidades cheias de desigualdades e conflitos, Jesus nasce do lado dos que perdem, do lado dos fracos, do lado dos rejeitados; justamente aqueles que não são convidados para as nossas Celebrações de Natal”. Natal é solidariedade e esperança na periferia, é lá onde está o menino-Deus. A salvação vem das extremidades, das periferias geográficas e existenciais. O resto é cerimônia.

 

Quinta feira próxima celebraremos o nascimento de um palestino, morador de rua nas ruas de Belém, refugiado, migrante, pobre, sem teto, sem-terra, carpinteiro, torturado e assassinado por pregar a igualdade, a justiça social e o amor; exatamente o que é o ministério do Padre Júlio Lancellotti, há 40 anos!

 

Abençoado Natal a você, leitor!


Frei José Fernandes, OP, é frade dominicano, militante de Direitos Humanos, assessor de movimentos populares e de CEBs.


📻 📺 O “Ponto de Vista” é, originalmente, um programa de rádio, veiculado pela Rádio Difusora de Goiânia, às segundas-feiras de manhã, e pela TV Causas da Vida, no YouTube, às segundas, a partir das 16h. Inscreva-se no canal e fortaleça nossa missão.

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