Para além do túmulo vazio: tirar os crucificados da cruz - Ponto de Vista - Frei José Fernandes
- Frei José Fernandes

- há 4 dias
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"Quando chegar a primavera, não procure a vida onde você plantou a semente. Ela não estará lá. Com a primavera, a vida se espalha. Ela não está aqui ou ali. Ela está em muitos lugares. O convite que a primavera nos faz é este: torne a vida presente e visível onde você estiver." Nesta segunda-feira da Páscoa, reparto com você, leitor ou leitora, esta poesia de meu querido irmão e amigo, Flávio Alves Barbosa. A poesia, muitas vezes, nos ajuda a tornar a cruz mais leve; sobretudo, quando assumimos, em nome da fé e do amor, sermos suportes dela.
Celebramos a Páscoa, continuamos celebrando a Páscoa como a principal festa do Cristianismo que, em sua origem, é a grande festa judaica celebrando a memória da libertação dos hebreus da escravidão do Egito. A Páscoa é, portanto, um fato! É histórico que Moisés liderou o processo que levou o povo a se livrar da escravidão. Caro leitor, cara leitora, eu disse escravidão. Celebrar a Páscoa, recordando a libertação de pessoas escravizadas, é um convite para colocar a Páscoa em nossa história hoje, onde o trabalho escravo é uma prática, em particular no Brasil. É fato o que Maria Madalena anunciou ao testemunhar o túmulo vazio! Celebrar a Páscoa é trabalhar para que todas as propriedades, onde exista trabalho escravo, se tornam como túmulos vazios.
Aos olhos da fé, sempre é Tempo Pascal: a Páscoa que vem da cruz, o Ressuscitado que vem do túmulo vazio! A cruz de Cristo é, ao mesmo tempo, cruz do sofrimento e cruz da fidelidade criativa; é a cruz que não é passividade e resignação; é a cruz da denúncia. Diante do crucificado, vemos gente gritando por condenação e gente lavando as mãos. Muitas vezes, a cruz revela a brutalidade e a crueldade humanas e o amor de Deus. Como nos ensinou o teólogo, o jesuíta Jon Sobrino, “não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela”. O Cristo crucificado é o identificado com quem sofre; o Cristo ressuscitado é o identificado com quem constrói vitória.
Leitores e leitoras, o mesmo digo eu em relação ao túmulo vazio: não podemos crer no túmulo vazio, se não ajudarmos a remover a pedra, as tantas e diferentes pedras. O túmulo vazio é o fim sem fim; o túmulo vazio nos provoca reflexão, ação, movimento, inclusive buscando as causas pelas quais continuam existindo irmãs e irmãos nossos crucificados, irmãs e irmãos nossos que não conseguem remover a pedra, as pedras.
Apesar de tanta miséria, tribulações e desesperos, a nossa fé nos ajuda a afirmarmos junto com o tão inspirado Carlinhos, de Sanclerlândia – aqui de Goiás – com a frase que continua inscrita no local do atentado, onde o latifúndio tentou matar padre Chicão, Francisco Cavazzuti, e o deixou cego. A frase é: "Aqui as forças da morte não venceram a vida". É... o amanhecer ensolarado vem após a noite escurecida. A ressurreição de Jesus nos faz mais humanos, mais humanas e só conseguimos ser “mais divinos”, fazendo-nos “mais humanos”, mais solidários e solidárias, mais presença junto à humanidade, cuidando inclusive das demais criaturas.
Leonardo Boff nos lembra que “neste Tempo Pascal – tempo sombrio e ameaçador – vivemos uma discreta alegria, pois a Sexta-feira da Paixão ainda se prolonga para muita gente e a última página de nossa história não será escrita pela morte, mas pela ressurreição da vida”.
Leitores e leitoras, desejo a vocês uma abençoada vivência pascal.
📻 📺 O “Ponto de Vista” é, originalmente, um programa de rádio, veiculado, às segundas-feiras de manhã, pela Rádio Difusora de Goiânia. Nas segundas à tarde, o programa fica disponível na TV Causas da Vida, no YouTube, a partir das 16h. Inscreva-se no canal e fortaleça nossa missão.




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