Padre Josimo: clareza, coragem e coerência - Ponto de Vista Semanal - Frei José Fernandes, OP
- Frei José Fernandes

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“Nas terras do Bico Norte, onde a dor fez moradia, surgiu Josimo com coragem e valentia. Defendendo os camponeses contra a cruel tirania, fez da fé verdadeira uma arma pra lutar. Na CPT assumiu seu chamado decidido. Ao lado dos pobres sempre, nunca ficou escondido. Enfrentou fazendeiros que espalhavam opressão. Josimo permanece na memória popular, como mártir da Justiça que não parou de lutar”.
Assim poetiza Eli Carlos, de Alto Alegre do Pindaré, no Maranhão. É o pastor poetizando sobre “o padre negro das sandálias surradas”, que foi tombado por duas balas assassinas a mando da UDR – União Democrática Ruralista –, que dom Tomás Balduino costumava chamar de União Demoníaca Ruralista; hoje ela tem outros nomes, e outras formas: é o agronegócio. Preciso lembrar aqui, especialmente à juventude, que o inspirador, criador e chefe desta entidade naquela época foi o goiano, que hoje quer presidir o Brasil. Lembrar não faz mal, né!
Padre Josimo Morais Tavares, que ontem, 10 de maio, celebramos 40 anos de seu martírio, foi assassinado com a mesma idade em que seu mestre Jesus também foi assassinado. Cinco anos antes de sua ordenação, ele escreveu a dom Cornélio, bispo de Tocantinópolis: “Não quero ser padre de escritório, mas não quero ser padre burro. Gostaria de ser letrado como um teólogo, ao mesmo tempo humilde e simples o suficiente para poder trabalhar com o povo”.
Leitores e leitoras, precisamos lembrar aqui do contexto que o Brasil vivia naquela época e, em particular, na região do Bico do Papagaio. Estamos falando dos anos 70 e 80! Ah se o tempo deste nosso Ponto de Vista permitisse lembrar as conquistas e os sofrimentos relacionados às lutas pela terra em consequência dos Projetos de Campo, de Agricultura conduzidos pelos militares, gerando muitos conflitos Brasil afora! Da vida deste meu irmão padre, a lição que tiro, posso resumir em três ideias geradoras, três iluminações: clareza de opção, coragem e coerência.
Passo a comentar, brevemente, cada uma delas: Clareza de opção – insisto: naquele contexto – e esta clareza se deu atendendo ao chamado vocacional de compromisso com o Evangelho, assumindo as causas dos pobres, em especial do campo, e mergulhando “de corpo e alma”, dedicando sua vida a favor dessas causas. Coragem: ele tinha consciência e clareza que sua opção de estar junto e fazer a defesa dos trabalhadores e trabalhadoras e denunciar o latifúndio e suas maldades, podia lhe custar a própria vida. E, coerência: Josimo, mesmo sabendo dos riscos não teve dúvida, foi fiel à sua opção de vida, coerente com o Evangelho e cumpriu papel de profeta: denunciar e anunciar. Denunciar as maldades dos poderosos, latifundiários, grileiros de terras e, ao mesmo tempo, defender os camponeses, indígenas, ribeirinhos, quilombolas. Josimo foi coerente até seu último suspiro, quando foi covardemente assassinado.
Lembro-me como se fosse hoje: umas duas semanas antes do assassinato, almocei com ele num restaurante na Praça Tamandaré, aqui em Goiânia, ocasião em que ele veio por conta do atentado que havia sofrido há poucos dias, quando cinco tiros foram disparados contra o carro dele. Igualmente carrego comigo a memória da celebração de 7º dia em que concelebrei, ao lado da mãe dele, dona Olinda.
Padre Josimo não morreu em suas ideias e ideais; continua vivo em cada ocupação de latifúndio, em cada organização, articulação e marcha de sem-terra e sem teto; em cada celebração de conquistas e vitórias!
Leitores e leitoras, desejo a vocês uma abençoada semana.
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