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O compromisso dos padres da caminhada

Atualizado: 23 de nov. de 2023


Símbolo do 2° encontro dos padres da caminhada

CARTA COMPROMISSO DOS PADRES DA CAMINHADA


1. Nós, Padres da Caminhada, somos um coletivo, unidos por ideais comuns, sem qualquer

pretensão de constituirmos uma instituição formal. Nascemos no 4º

Sulão das CEBs, em Canoas/RS (15-17/11/2019), do desejo dos padres

assessores de fortalecer a caminhada das CEBs. Tivemos um 1º Encontro

presencial junto ao túmulo de Dom Pedro Casaldáliga, em São Félix do

Araguaia/MT, em 2022, e agora estamos vivenciando nosso 2º Encontro

presencial (13-17/11/2023), junto ao túmulo de Dom Paulo Evaristo Cardeal

Arns, conscientes de que nossas causas valem mais que nossas vidas. O que

queremos é dar visibilidade aos sinais do Reino anunciado e revelado por Jesus

de Nazaré, na radicalidade da opção pelos pobres e descartados da nossa

sociedade.


2. Percebemos o momento crucial pelo qual passa o planeta, marcado por tragédias

ambientais, agravadas ainda mais pela irracionalidade das guerras e pelo apetite

voraz de grandes corporações capitalistas.


3. Temos consciência também de que é preciso fazer a retomada do processo de

recepção do Concílio Vaticano 2, interrompido nos tempos do inverno

eclesiástico e retomado pelo Papa Francisco.


4. Acreditando que “O ministério ordenado tem uma radical forma comunitária e

pode apenas ser assumido como obra coletiva” (PDV 17), queremos ser uns

para os outros, um espaço de ajuda e acolhimento, sobretudo para aqueles

presbíteros que se sentem mais isolados.


5. O isolamento de vários de nossos irmãos tem sido motivo de muito sofrimento

e desencanto, provocando, inclusive, decisões radicais contra a própria vida.


6. Percebemos que a Igreja tem recuado em sua profecia, deixou de ser voz dos

sem voz e, com isso, não é mais sinal de esperança para parte significativa do

povo que, muitas vezes, só dela pode esperar um alento para sua vida. Nesse

sentido, acreditamos que se faz urgente a volta a Jesus e ao seu projeto de Reino.


7. Com o passar dos anos, a Igreja foi se tornando uma instituição pesada, distante

dos ideais evangélicos, preocupada mais com sua manutenção na história,

contaminada pela autorreferencialidade, perdendo o horizonte escatológico que

a torna dinâmica. A instituição deveria se reconhecer efêmera no aqui e agora

e, ao mesmo tempo, com partículas de eternidade no ainda não, com a força

profética que a faz caminhar de esperança em esperança.


8. Reconhecemos que o processo de sinodalidade, impulsionado pelo Papa

Francisco, tem suas raízes na Tradição, e já foi vivido em inúmeras Igrejas

Locais no nosso país, animadas pelo carisma de irmãos e irmãs profetas e

profetizas que tivemos, tais como, Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo

Arns, Dom Ivo Lorscheiter, Dom Aloisio Lorscheider, Dom Antônio Fragoso,

Dom José Maria Pires, Dom Luiz Gonzaga Fernandes, Dom Pedro Casaldáliga,

Dom Tomás Balduíno, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Angélico

Sândalo Bernardino, Dom Orlando Dotti, Dom José Gomes, Dom Antônio

Celso Queiroz, Dom Erwin Klauter e Padre Orestes Stragliotto, Padre Alberto

Antoniazzi, Frei Carlos Mesters, Zilda Arns e tantos outros, sobretudo inúmeros

mártires. Foram eles que nos ajudaram a atravessar o longo inverno eclesial que

insistia em frear iniciativas proféticas próprias de uma verdadeira Igreja-Povo

de Deus, conforme nos orientava o Vaticano 2.


9. Hoje, somos obrigados a enfrentar uma conjuntura tão complexa de uma

sociedade multicultural, com tantos desafios, muitas vezes intransponíveis, que

põem em risco o próprio ministério, sobretudo nos nossos locais concretos de

trabalho, isolados, muitas vezes perseguidos, e sem apoio institucional.


10.Temos consciência de que não basta multiplicar atividades, não somos apenas

padres tarefeiros, mas sim buscar uma mística que nos dê o sentido profundo de

nossa existência e compromissos. Preocupa-nos também o processo de

formação dos novos padres; pois este está sob o desafio de encontrar novas

metodologias, que superem a atual que dá sinais visíveis de esgotamento.


11.Reunidos em São Paulo, mais de 40 irmãos do nosso coletivo, tivemos a

oportunidade de olhar com atenção a realidade social, econômica, política,

cultural e religiosa. Refletimos sobre a triste questão do suicídio de vários

coirmãos; pintamos um quadro sobre os cenários da Igreja e sonhamos com

propostas de ação; encaramos o monstro da desigualdade social, fruto do

sistema capitalista que mata, sentimos a opção de Jesus nos evangelhos e a força

do Espírito que nos empurra para a vivência junto dos pobres, num profundo

processo de escuta das suas demandas concretas e existenciais. Percebemos a

necessidade de definir um novo paradigma sustentado pela utopia do Reino, tão

bem expresso no cultivo do bem-viver. Nesse contexto, como Coletivo dos

Padres da Caminhada, revimos nossos compromissos e decidimos:


12.Reassumir nosso amor primeiro, voltando sempre a Jesus de Nazaré, ao frescor

do seu Evangelho e de seu projeto de Reino;


13.Reassumir nossa incondicional opção pelos pobres, por meio de uma aliança

profunda com os movimentos populares, pastorais sociais, caminhada das

Comunidades Eclesiais de Base, partidos populares, sindicatos ativos e outros;


14.Reassumir também o compromisso com o processo de recepção das conclusões

do Concílio Vaticano 2 e, de maneira muito particular, com a profética

Conferência de Medellín, onde o horizonte da justiça marcou todas as suas

definições;


15.Reassumir o compromisso com o caminho sinodal, fomentando processos de

inclusão de todas as forças vivas da sociedade, não somente os que já estão

incluídos na caminhada eclesial. Somente uma Igreja de portas abertas para sair

e entrar, para envolver-se e abrir espaços a todos, na perspectiva do Papa

Francisco – todos, todos, todos – desencadearemos um processo sinodal;


16.Reassumir o compromisso de manter viva e dinâmica a reflexão teológica, na

perspectiva das Teologias da Libertação revisitadas e atualizadas, privilegiando

o método indutivo na pastoral, ou seja, partindo sempre da realidade e não da

doutrina;


17.Reassumir o compromisso de fomentar a vivência das Comunidades Eclesiais

de Base, por acreditarmos que elas constituem no espaço ideal para um encontro

com Jesus de Nazaré, por meio de sua Palavra, da Eucaristia, da oração em

comum e da partilha da vida e das necessidades dos mais vulneráveis;


18.Reassumir nossa disponibilidade para servir a Igreja sempre a partir dos últimos

lugares, onde predominam os empobrecidos e os descartados da sociedade;

19.Reassumir sempre com renovado vigor nosso compromisso de enfrentamento

da tragédia ambiental que assola o país, em todos os seus biomas, onde os que

mais sofrem são os pobres, buscando agir como cuidadores da criação;


20.Reassumir nosso compromisso com as juventudes, na perspectiva de se fazer

mais próximo dos diversos processos em que elas estão inseridas. E uma

especial atenção aos novos recursos midiáticos e das redes sociais, por onde,

sobretudo as juventudes, transitam com mais frequência e facilidade;


21.Reassumir o compromisso de caminhada sinodal inclusiva com irmãos de

outras Igrejas cristãs e de outras expressões religiosas, no melhor de nossa

tradição ecumênica e de diálogo inter-religioso;


22.Reassumir o compromisso com a formação popular geradora de novas

lideranças para a Igreja e sociedade. Nesta perspectiva, fazer aliança com

instituições e organismos eclesiais e sociais que atuam nesse campo;


23.Agindo assim, cremos que vivenciaremos o melhor de nossa Tradição

Teológico-Pastoral da América Latina, sob a companhia sempre profética de

Maria de Nazaré.


São Paulo, 17 de novembro de 2023.


A seguir, um vídeo com relatos colhidos pela jornalista Ana Helena Tavares sobre o grupo Padres da Caminhada, quando eles estiveram reunidos em São Félix do Araguaia, em julho de 2022, para o 1º encontro nacional.



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