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Coluna do monge Marcelo Barros: o martírio prolongado e atual de Monsenhor Romero



Por Marcelo Barros*


A versão oficial relata o martírio de Monsenhor Oscar Romero como ocorrido na tarde de 24 de março de 1980, quando este celebrava a Missa no hospitalito. De fato, naquela tarde, o seu sangue foi unido ao memorial da entrega pascal de Jesus.


É verdade que aquela bala roubou a vida de um profeta. A morte matada é sempre violenta e, fisiologicamente, sem volta. No entanto, de acordo com os laudos médicos, Romero morreu, quase instantaneamente e sem sofrimento prolongado. O que Romero sofreu como martírio mais forte não foi a bala que o matou. Foi a imensa dor, vivida no dia a dia dos seus três anos de ministério como arcebispo de San Salvador, desde que, progressivamente, se inseriu na realidade do seu povo e passou a assumir a defesa dos pobres e tomar a defesa das pessoas ameaçadas pela ditadura militar e pelos lavradores e indígenas simplesmente vítimas de extermínio. Ao entrar nessa inserção e tomar posição nessa luta pacífica em favor dos excluídos, dentro de pouco tempo, Romero viu muitas pessoas que, antes, eram amigas se afastarem e progressivamente o hostilizarem. Percebeu claramente que não contava mais nem com a amizade de quase nenhum dos seus irmãos, bispos de El Salvador. Principalmente, o Vaticano que o tinha colocado como arcebispo para representar os interesses eclesiásticos no país, passava a tê-lo como alguém estranho e considerado de esquerda.


Para qualquer pessoa sensível, isso teria representado um grande sofrimento. No entanto, para Monsenhor Romero foi inesperado e, de certo modo, incompreensível. Ele era um homem de profundo amor à Igreja institucional. Por formação, nunca podia imaginar que o fato de assumir com coragem a defesa dos mais frágeis e acreditar profundamente nas comunidades eclesiais de base e na Igreja dos pobres o fizesse ser visto como alguém a ser evitado pelos próprios irmãos no episcopado e até por Roma.


Esse foi o verdadeiro martírio de Romero; martírio, prolongado e oculto. Ele se sentia perseguido e podia apontar os militares que o ameaçavam. No entanto, não podia divulgar os maus entendidos, desfeitas e comentários malvados que sofria do episcopado e dos próprios católicos ricos da arquidiocese que o consideravam comunista. Isso o fazia perder noites de sono. Mesmo participar de encontros do episcopado era ocasião de desencontros e sofrimentos. Uma vez, em 1979, um amigo leigo o transportou ao local onde Monsenhor Romero ficou hospedado para participar de um encontro com os outros bispos do país. Dois dias depois foi buscá-lo e o encontrou com febre e dor estomacal. Estava consciente de ser resultado da tensão sofrida naquela reunião que deveria ser de diálogo entre irmãos, mesmo que pensassem de modo diferente.


Sua consolação era quando estava cercado pelas pessoas mais pobres e podia ver florescer as comunidades da Igreja inserida. Esse era o único socorro para as pessoas perseguidas pela ditadura e pela elite que se apossava das terras indígenas. A bala que matou Romero não tinha como objetivo a pessoa individual do bispo. O alvo era a Igreja dos pobres a qual Romero dava toda força. Era esta que precisava ser neutralizada.


Mataram Romero para acabar com a Igreja dos pobres. A boa notícia disso tudo é que, embora com toda a dor que o martírio de Romero provocou, a repressão que matou milhares de pessoas não conseguiu acabar com a minoria profética da Igreja pobre e dos pobres.


Depois de quase 40 anos, o papa Francisco forçou que o Vaticano levasse adiante o processo de canonização de Romero. Poucos anos antes, na Praça da Catedral em San Salvador, o cardeal romano que presidiu a cerimônia de beatificação afirmou que a Igreja reconhecia Romero como santo porque ele tinha profunda devoção ao Santíssimo Sacramento, era devoto de Nossa Senhora e amava o papa. Na direção contrária a essa folclorização da figura do santo, o papa Francisco valorizou o martírio de Romero como martírio e pelo fato dele ter dado a vida por seu povo.


Em termos sociais e políticos, para El Salvador, a canonização de Romero ajudou a causa da democratização do país. No entanto, ao se centrar nas virtudes pessoais de Romero, o processo de canonização não expressou claramente nenhum reconhecimento direto à causa pela qual Romero deu a vida. Não trouxe nenhuma valorização à inserção da Igreja no mundo dos pobres que foi o que verdadeiramente santificou Romero.

Hoje, o que Romero nos pede é acreditarmos de novo no projeto da Igreja inserida nas bases e renovarmos o anúncio do anjo a Maria no sentido da revelação de que a Palavra Divina se faz carne na vida e nas causas dos povos crucificados no mundo atual. Para que o martírio de Monsenhor Romero seja valorizado, é preciso que testemunhemos o que, no Nordeste brasileiro, cantava o poeta popular e Dom Helder Camara espalhou:

“Eu acredito que o mundo será melhor,

quando o menor que padece

acreditar no menor”.


*Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo.

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