Abril e Brasil vermelhos - Ponto de Vista Semanal - Frei José Fernandes, OP
- Frei José Fernandes

- 13 de abr.
- 3 min de leitura

Estamos no mês de abril, e abril é vermelho e, por que abril é vermelho? Porque é especialmente o mês das principais lutas: dos povos indígenas, com suas principais causas; e dos sem-terra, na defesa da Reforma Agrária e da vida em abundância para todas as pessoas.
Os povos originários do Brasil do século 16 eram os donos da terra e hoje, o principal objetivo das lutas deles é exatamente a reivindicação pela demarcação e proteção de seus territórios. Ontem donos, hoje lutadores e lutadoras por aquilo que eram donos. Acompanhar e participar do abril vermelho pode ser uma oportunidade para nós que vivemos na cidade: aprender, com os indígenas, a fazer da cidade mais do que um espaço físico. Um local de identidade cultural, espiritual e econômica. É assim que os indígenas veem os seus territórios.
Os povos indígenas enfrentam uma série de desafios históricos e contemporâneos que refletem séculos de colonização, marginalização e resistência. Suas lutas são diversas e interligadas, abrangendo aspectos territoriais, culturais, sociais e políticos. Entre as principais razões que mantêm a necessidade de luta dos povos indígenas no Brasil estão a demarcação e a proteção territorial e, também, a importância de acabar de uma vez por todas com o garimpo ilegal, barrar a tese do marco temporal, o preconceito e a violência.
Leitores e leitoras, o abril é vermelho também para os sem-terra: durante este mês, o MST realiza – em todo o país – a Jornada Nacional de Lutas em defesa da Reforma Agrária. Assim como o 19 de abril é o dia das lutas dos povos indígenas, o 17 de abril é o dia internacional das lutas camponesas, em memória a um dos maiores massacres contra a vida do povo trabalhador – o Massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, onde há 30 anos, a Polícia Militar assassinou 21 pessoas, interrompendo uma marcha de famílias sem-terra.
O que essas duas lutas têm em comum? Marchas em busca da dignidade interrompidas: os povos originários que tinham suas vidas tranquilas e felizes baseadas na cultura do bem viver e do bem conviver, com seus territórios e suas culturas; e os trabalhadores e trabalhadoras do campo, também com suas culturas e suas lutas, têm suas marchas interrompidas. Indígenas e sem-terra tiveram e continuam tendo sangue derramado na terra enquanto lutavam e continuam lutando por condições de vida digna. Povos originários e sem-terra são uma verdadeira escola de organização e lutas.
Os responsáveis por essa situação são empresários, grileiros, garimpeiros, fazendeiros, mineradoras, madeireiros e o próprio Estado. O meu irmão e amigo Antônio Baiano, de Orizona, em Goiás, expressa o “lamento do povo”, cantando assim: “Clamando pela posse da terra no campo milhares estão. Esse grito está incomodando a quem sempre viveu da exploração. O que posso fazer? O que tenho a dizer, meu Pai? Que se faça justiça, repartam as terras, partilhem o pão entre nós filhos teus. Não posso mais enumerar os mártires deste país. Na roça e também na cidade só tem crueldade correm rios de sangue! A quem servem a lei e o poder? A polícia e a Constituição? Assassinam sem piedade, permanecem impunes criminosos desta nação. Passo a passo, fazemos caminho, sempre em busca de organização”.
O abril é vermelho, o Brasil é vermelho por isto: pela urgência das memórias, das lutas e das Políticas Públicas de reparação e afirmação de direitos, pois viver com dignidade é direito fundamental de toda pessoa.
📻 📺 O “Ponto de Vista” é, originalmente, um programa de rádio, veiculado, às segundas-feiras de manhã, pela Rádio Difusora de Goiânia. Nas segundas à tarde, o programa fica disponível na TV Causas da Vida, no YouTube, a partir das 16h. Inscreva-se no canal e fortaleça nossa missão.





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