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A paixão de Tito e a paixão de Cristo, por Frei Xavier Plassat


"Melhor morrer do que perder a vida"


Foi a partir destas poucas e enigmáticas palavras, rabiscadas em simples folha de papel e descobertas poucos dias depois da sua morte (ocorrida perto do dia 10 de agosto de 1974, festa de São Domingos), que tenho tentado desvendar o mistério do suicídio do meu irmão. Tito de Alencar Lima, brasileiro e, como eu, um jovem religioso dominicano. Com vários outros irmãos, fora preso, acusado de ter auxiliado militantes da resistência ao regime militar, ajudando nos bastidores a Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella.


Ele devia sua "liberdade" ao fato de ter sido trocado contra a vida salva de um embaixador que um grupo de militantes da resistência havia sequestrado em 1971, em São Paulo. Despojado de sua nacionalidade, ele havia então sido banido, junto com outros 69 companheiros de infortúnio. Após vãs tentativas para reaprender a viver em Paris, viera morar conosco, no convento de La Tourette, em Eveux-sur-l'Arbresle. Juntos, havíamos tentado desafiar o torturador que nele se instalara: Sérgio Fleury, chefe da polícia política de São Paulo, supremo organizador das sucessivas sessões de tortura - com incrível barbárie - a que Tito fora submetido.


Numa delas, vestido com paramentos litúrgicos, o carrasco oferece a Tito receber a hóstia consagrada e depois enfia-lhe um fio elétrico na boca. Exausto, com medo de ceder ao sofrimento, e pensando assim em dirigir um forte alerta à Igreja, intimada a se posicionar, Tito tentará o suicídio. Salvo in extremis, eles tentarão enlouquecê-lo, como que para forjar um motivo que possa lavar o crime de seus carrascos.


Este mesmo Tito estava agora entre nós. Formado, como ele, na escola da JEC, nos anos do Concílio Vaticano II, e já provocado pelas experiências inéditas das CEB's na América Latina, eu compartilhava com Tito alguns dos sonhos que, a ele também, haviam inspirado, antes de ser tão brutalmente quebrado. Foi a amizade e esses sonhos compartilhados que nos tornaram próximos. Aos poucos, fui percebendo a extensão dos estragos que a tortura havia deixado nele: Fleury estava aqui, sempre ao seu lado, entre ele e nós.


Tito mais bem parecia como que um animal acuado pelo seu carrasco, preso como que num interminável "corredor polonês", alternando lucidez e delírio, oscilando entre resistência e desistência face às loucas ordens que o intimavam a render-se, ao fim e a cabo, ele, um "duplo traidor", um "Judas ao quadrado", submetido a um interrogatório sem fim e acusado de ter entrado, tal como os seus outros irmãos, em conluio com os comunistas e depois de tê-los entregue à polícia. Tito não tinha mais chão onde pousar os pés, nem paz onde repousar a alma. E nós estávamos ali, ao seu lado, cheios de raiva, tanto quanto de impotência.


Seria ele mais uma figura contemporânea do servo sofredor anunciado pelo profeta Isaías (53, 3-5)? Desprezado, abandonado por todos, homem das dores, familiarizado com o sofrimento, semelhante ao leproso de quem todos se afastam... Morto ? No fundo, será que Tito já não estava morto ao sair deste inferno da prisão e da tortura? Algumas pessoas pensam assim, e com certa dose de razão.


Eu sei que tentar explicar um suicídio é um exercício ilusório. Não parece o suicídio mais como um fracasso devastador? Onde falhamos? Porém isso ainda é dizer muito pouco: não deveria o suicídio ser entendido também como o ato - pelo menos o grito - de um sujeito para quem esse gesto se tornou como a última afirmação possível de seu ser?


Em se tratando do meu irmão Tito, confesso que o significado daquelas palavras rabiscadas - seguidas da menção às duas únicas opções disponíveis ("corda/suicídio" e "tortura prolongada") - só me ocorreu aos poucos , numa espécie de revelação. Na extremidade diminuta da vida que seus carrascos lhe haviam concedido, nesta ínfima margem de liberdade ainda disponível (?), Tito resolveu assumir esta opção como sua e cuspiu na cara de seus carrascos: "Vocês não terão a última palavra! A minha vida ninguém tira, sou eu que dou…”. As próprias palavras de Jesus, segundo o Evangelho de João 10, 18...


Dito de outra forma, temos essas palavras ouvidas durante o encontro que nos reuniu em janeiro deste ano em La Tourette, em memória de Tito: A paixão de Tito é a Paixão de Cristo continuada hoje. O Tito sofredor, como todos os torturados do nosso tempo, é o Cristo sofredor presente em nossa história. (Alain Durand, op).


“Nós o desprezávamos, e o contávamos como nada. Achávamos que ele fora castigado, ferido por Deus, humilhado. Mas fora por nossas faltas que ele era traspassado, por nossas faltas que ele era esmagado, … e é por suas feridas que somos curados”


Xavier Plassat é frade dominicano.

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