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A atualidade das causas de Pedro e Paulo



A atualidade das causas de Pedro e Paulo


Por Ana Helena Tavares (*)

Quando decidi que iria mergulhar na ousada missão de biografar Pedro Casaldáliga, uma das primeiras perguntas que me fiz foi se as causas que ele abraçou ainda eram atuais. Pergunta semelhante hoje me faço sobre as causas de Dom Tomás Balduíno, batizado Paulo Balduíno. A resposta positiva surge de imediato, como uma flecha indígena que corta um latifúndio.

Se as causas dos bispos-irmãos, apaixonados pela América Latina, não fossem atuais, não haveria a CPI do MST, que tenta, mais uma vez, criminalizar um movimento social que ocupa terras para fazer cumprir a Constituição e alimenta tanta gente. Alimenta os sonhos com esperanças de um mundo justo e a barriga com arroz orgânico e comida saudável.


Se as causas dos cofundadores da CPT e do CIMI não fossem atuais os povos indígenas não estariam ameaçados pela estapafúrdia tese do marco temporal que tenta retirar seus direitos originários, facilitando a vida daqueles que sempre invadiram terras.

Se as causas do menino Pedro, nascido na Catalunha, e do menino Paulo, nascido no estado de Goiás, tornados afilhado e padrinho pela força do amor, não fossem atuais, o ódio não desfilaria por aí sem acanhamento.


Porque o ódio, é bom lembrar, não se acanha facilmente. Ele está enraizado na sociedade brasileira e só pela raiz, com trabalho diário de educação política, poderá ser destruído.


Enquanto persistir a exploração cruel do homem pelo homem, gerando fome, miséria e marginalização social, será necessário que existiam muitos Pedros, muitos Paulos.

Em seu livro “O caminhar da Igreja com os oprimidos – Do Vale de Lágrimas à Terra Prometida”, Leonardo Boff afirma: “Ninguém é feito profeta porque quer. É feito profeta pelo protesto e pela esperança face às contradições da realidade social.”


A profecia, sempre nos lembra o irmão Marcelo Barros, não é exclusividade de religiosos. É possível ser profeta no cotidiano.


Pedro e Paulo não foram profetas porque se tornaram os bispos Dom Pedro e Dom Tomás. Foram profetas e ganharam relevância, porque se depararam em suas épocas com injustiças diante das quais não puderam se calar.

Aqueles que esperneiam e vociferam contra as ações de gente como Pedro e Paulo deveriam antes se voltar contra a realidade que torna figuras como eles tão atuais e necessárias. Deveriam perceber que ser irmão do outro é também ser irmão de si, uma vez que um ambiente onde muitos são felizes é certamente mais habitável.


Preferem, porém, manter, pela mão pesada do poder econômico, os juros altos e a dignidade baixa.


Sendo assim, haveremos de precisar ainda por muito tempo de Pedros e Paulos, na Igreja e fora dela. Afinal, como versou o poeta Pedro Casaldáliga, em seu livro “Cantigas Menores”:


“As grandes empresas / já têm suas placas / Meu canto deve gritar / o silêncio dos pobres.”

Ana Helena Tavares é jornalista.

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