Vidas pela Vida, Vidas pelo Reino - Ponto de Vista Semanal - Frei José Fernandes, OP
- Frei José Fernandes

- 20 de jul.
- 3 min de leitura

“Vidas pela vida, vidas pelo Reino; todas as nossas vidas, como as suas vidas, como a vida dele, o mártir Jesus”; assim poetizou o santo do Araguaia, Pedro Casaldáliga e assim canta Zé Vicente.
Encharcados e encharcadas pela esperançosa mística que brota desta canção, milhares de romeiros e romeiras celebraram ontem, 19 de julho, em Ribeirão Cascalheira, o encerramento da 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada. As estradas do Mato Grosso viram a chegada e o retorno de milhares de caminhantes que se juntaram no Santuário, cruz do mineiro jesuíta Padre João Bosco Penido Burnier, onde o suor e o sangue fecundou e continua fecundando o chão, Terra da Esperança, Igreja dos Pobres em Libertação.
Lá, as romeiras e os romeiros vindos de todas as partes do Brasil e do exterior, se fortaleceram de, no mínimo, dois ensinamentos do “bispo do Araguaia”: 1º) que “ter esperança é um ato de rebeldia” e rebeldia coletiva, pois os pés dos romeiros não pisam a estrada sozinhos. Trazem na poeira e no suor a lembrança viva de tantas "vidas pela vida", "vidas pelo Reino". A memória de irmãos companheiros e irmãs companheiras que nos precederam e que, a exemplo do mártir Jesus, fizeram de sua existência uma semente de justiça. Segunda lição: a importância de “ser o que se é, falar o que se crê, crer no que se prega e viver o que se proclama, até as últimas consequências”.
Este ano, quem participou desta Romaria foi convocado e convocada a ser Testemunha da Esperança. Uma esperança inquieta, porque existe um martírio silencioso, sem sangue, que nos corrói por dentro quando passamos os dias anestesiados pela rotina, sem sede de Reino, aceitando o conformismo e chamando isso de paz. Os poderes do mundo hoje não violentam só com bombas ou tiros; são também silenciosos: escrevem injustiças com cifras frias que ferem sem fazer barulho.
Mas, o Evangelho caminha de pés descalços. Em Ribeirão, a fé se fez beleza: no cinema, com a apresentação do filme Mada e Bia; no picadeiro, com o Araguaia Pão e Circo e na espiritualidade, celebrando a teimosa festa da vida. Ali, o chão de suor e sangue se abriu em flores de alegria. Quem foi aprendeu na caminhada que nenhuma cruz é definitiva quando o amor de Deus floresce no coração do povo.
Quem esteve lá ou quem acompanhou em comunhão de memória e compromisso – como eu – sentiu a espiritualidade brotar de muitas formas. A caminhada nos ensina que a memória dos mártires é semente de futuro. Acredito que a maior certeza que trouxeram na bagagem para sempre é uma só: nenhuma cruz é definitiva quando o amor de Deus floresce no coração do povo.
Leitor e leitora, que essa esperança teimosa e bonita acompanhe o seu dia, a sua semana, a sua vida. Onde quer que você esteja agora, que no seu chão também brote sementes de coragem, resistência, compaixão, memória revolucionária, profecia, justiça e paz, democracia e do bem viver, sobretudo neste ano eleitoral; pois, fazer memória é trazer as dores da nossa terra e a vida do povo para dentro do coração, fermentando uma sociedade sem males. E a Romaria da Esperança segue, todos os dias em nossas vidas! E qual é o caminho? É o caminho da esperança e do amor que nos leva a esperançar.
📻 📺 O “Ponto de Vista” é, originalmente, um programa de rádio, veiculado, às segundas-feiras de manhã, pela Rádio Difusora de Goiânia. Nas segundas à tarde, o programa fica disponível na TV Causas da Vida




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