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Sonhos que esse Natal provoca, por Marcelo Barros

Marcelo Barros

No mundo inteiro, Natal e Ano Novo, independentemente da fé cristã, se tornaram festas que expressam o desejo de Paz para toda a humanidade. Podemos, então, sonhar com o dia, no qual a sociedade civil internacional forme uma espécie de ONU dos povos e não só de governos, para dizer basta aos imperialismos e, tanto nos votos, como nas ruas, repita o grito que, há 60 anos, em 1965, Papa Paulo VI exclamou na ONU: “Nunca mais a guerra!”.


Sonhemos que ministros e ministras de Igrejas, comunidades da fé judaica e da fé muçulmana unam suas vozes e suas energias para denunciar o crime do genocídio e garantir vida ao povo palestino.

Sonhemos que, no Brasil, a imensa maioria pobre não seja mais iludida pelas propagandas, nem desista de lutar por uma democracia participativa, que sirva a todo o povo, especialmente, as camadas mais oprimidas da sociedade.


Em meio a essa noite escura da fé, acolhamos o Natal, não apenas como aniversário do menino Jesus e sim como o mais belo anúncio da Páscoa, antecipada no presépio de Belém. Antigos pastores da Igreja diziam que a madeira do presépio é a mesma da Cruz. E o texto evangélico proclamado na noite de Natal conta que o Anjo do Senhor anuncia: Hoje, na cidade de Davi, nasceu o Cristo que é o Senhor” (Lc 2, 11).


Senhor é o título do Cristo ressuscitado. Hoje, devemos evitar títulos que legitimem a cultura patriarcal. Na época, era o modo das comunidades cristãs afirmarem que Senhor só Deus e o Cristo Ressuscitado e não o Imperador Romano.


Sonhemos e trabalhemos por um dia, no qual, as Igrejas aceitem ir até as últimas consequências do Natal de Jesus. Testemunhem a salvação trazida em Belém. Em 1968, em Medellín, os bispos católicos latino-americanos afirmaram: a Igreja deve concretizar a salvação “na “libertação integral de toda humanidade e de cada ser humano”. (Med 5, 15).


Sonhemos que as Igrejas se convençam de que a sua missão é ser “Igreja em saída”. Isso quer dizer que a salvação divina se realiza no mundo e como gravidez de um mundo novo.


Que a celebração da Ceia de Jesus possa voltar a ser refeição de comunhão e partilha. Aí, sim, a eucaristia será profecia de novo modo de organizar o convívio humano, em uma terra onde o amor vence o ódio e a fé se expressa como profecia na luta pacífica contra a fome, a miséria e as desigualdades sociais que as provocam.

Que o nosso sonho seja profético como aquele que, conforme o poema do evangelho, José viveu e acolheu para ser pai de Jesus e esposo de Maria (Mt. 1, 18- 24) É no meio dos conflitos e vicissitudes da vida que virá a nós, o Emanuel, Deus conosco, Deus em nós.


A filósofa espanhola Maria Zambrano afirmava que o ser humano não é apenas mortal. Todo ser vivo é mortal. O que constitui o ser humano é ser “natal”, ou seja, capaz de se renovar permanentemente.


Esse Natal torna verdadeira a canção de Milton Nascimento:

“Há um menino, há um moleque,

Morando sempre no meu coração

Toda vez que o adulto balança,

ele vem pra me dar a mão”.


Feliz Natal lhes deseja o irmão Marcelo.


Marcelo Barros é monge beneditino, escritor, assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões, biblista e doutor em ciências da religião.

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