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A acédia política e os desafios do tempo presente, por Marcelo Barros

há 1 minuto
4 min de leitura

Na noite desse domingo, 4 de outubro, mesmo quem não estava otimista e já previa o pior, descobriu que a realidade sócio-política brasileira está mais doente do que se pensava. Essas eleições mostraram que, para muita gente, a Política que deveria ser vocação, tornou-se algo impróprio e desaconselhável a menores de dezoito anos.


Nesses dias, analistas terão o encargo de decifrar o que está por trás do fato de quase metade da população brasileira votar contra si mesma e contra os interesses das classes trabalhadoras. Como compreender o tamanho da alienação das pessoas comuns, que nos morros do Rio de Janeiro, de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e outras cidades, escolhem como seus representantes, gente que vai organizar a sociedade contra a justiça ecossocial e contra o direito das maiorias empobrecidas?


Mesmo quem não acredita em “pobre de direita”, percebe que, cada dia, torna-se mais difícil para as pessoas simples acreditarem que é possível transformar a sociedade.


Na vida espiritual, um dos maiores obstáculos para o caminho é o que, tradicionalmente, chama-se acédia, que significa azedume. Pode-se explicar como tédio espiritual ou apatia, em relação às coisas de Deus.

Foi no século V, que o monge João Cassiano descreveu essa doença dos monges do deserto: uma espécie de letargia permanente, causada pela exaustão interior e pela perda da esperança. Outro monge, Evágrio Pôntico chama de “demônio do meio-dia”, uma espécie de torpor que paralisa a vida, como o calor do meio-dia provoca a sonolência que dificulta o ritmo do trabalho e, para quem peregrina, a continuidade do caminho.


No tempo da pandemia, Benjamin de Sousa Santos usou o termo acédia para falar da sociedade contemporânea[1]. Parece que, de lá para cá, a doença se agravou e, ao menos no Brasil, o entorpecimento social tornou-se pandêmico e ainda não se encontrou a vacina.


Como o mal é espiritual, em princípio, as religiões poderiam ajudar. No entanto, infelizmente, no decorrer da História, ao associar-se ao Colonialismo e, ao conviver, normalmente, com as estruturas iníquas da sociedade, grande parcela das Igrejas cristãs e de outras religiões contaminou a sociedade com os vírus da apatia e da insensibilidade social.


Embora possamos pensar que, desde os tempos da República, a situação brasileira nunca foi tão trágica quanto agora, o certo é que já enfrentamos vários momentos pesados e desafiadores.


Na noite da apuração dos votos, enquanto a televisão mostrava a catástrofe do resultado eleitoral desse primeiro turno, corri atrás da série “Betinho, no fio da espada”, produção da Globo Play. Ali encontrei-me com o saudoso amigo de outras décadas. Recordei o Brasil no qual, depois de ter fundado a Ação Popular, AP, Betinho teve de distanciar-se da Igreja e exilar-se no Chile, para não ser mais um torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira.


Através da série, revi com os olhos e o coração a sua longa peregrinação pelo Chile, Cuba, Escócia, Canadá e México, para sobreviver e para prosseguir a sua missão de revolucionário. Emocionei-me com as cenas verídicas que filme reproduz do momento da anistia, “o bêbado com chapéu coco, fazia irreverências mil, pra  noite do Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu...”.


Em 1979, Betinho voltou ao Brasil e enfrentou lutas terríveis. A série mostra o choro e desespero dele e do Henfil quando, em 1984, em meio a toda a luta pelas “Diretas Já”, a Emenda Dante de Oliveira é derrotada na Câmara Federal e tudo parecia voltar ao ponto zero.


Ao mesmo tempo, junto a seus dois irmãos, como ele, hemofílicos, expostos às transfusões de sangue sem nenhum controle, descobriu a Aids, ainda sem qualquer cura. Mesmo convivendo diariamente com a morte, nunca parou. A série mostra a sua imensa luta para, junto com Marcos Arruda e outros companheiros, fundar e depois manter o IBASE. Retrata-o,  ainda no começo dos anos 1990, lançando a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, que apontou caminhos de saída para tantas pessoas e, mais tarde, inspirou o Fome Zero e o Bolsa Família...


Diante de tal quadro, como podemos desanimar? É claro que podemos continuar a canção do João Bosco e acompanhar Elis Regina a cantar: “Mas, sei que uma dor, assim pungente, não há de ser inutilmente, a esperança dança, na corda bamba de sombrinha, e em cada passo dessa linha, pode se machucar”.


Olho a figura do Presidente Lula e vejo nele a figura de Jesus Cristo. Este, durante toda a sua vida adulta, no meio das periferias da vida, espalhou sementes e sinais fortes da vinda do projeto divino para o mundo. Depois disso, foi preso e, conforme os evangelhos, diante do Governador Pilatos, viu o seu próprio povo preferir Barrabás, que era um bandido a ele, profeta enviado de Deus, para salvar esse mesmo povo.


Depois de todo o seu itinerário de vida pública, o Presidente Lula, ao mesmo tempo que se consagra como o maior estadista vivo do mundo, vive, em seu país, o momento mais pesado de cruz. Mais pesado do que a prisão, pois essa foi, desonestamente, provocada por seus inimigos. Agora, com o aparato legal da Democracia, uma multidão de brasileiros e brasileiras entorpecidos gritam pelo voto: Barrabás, Barrabás e o mandam para a cruz.


O convite que lhes faço agora é que todos e todas nós da caminhada de libertação possamos ir com ele, não para a cruz da resignação e da vitimização, que o Mel Gibson colocou no seu filme, mas a cruz da luta pacífica, valente e firme na confiança da vitória que ninguém tirará dele e de nós. Como escreveu o profeta João: “A vitória que vence o mundo é a nossa fé” (1 Jo 5, 5).



Marcelo Barros é monge beneditino, escritor, assessor de movimentos populares e no diálogo entre as religiões, biblista e doutor em ciências da religião.

 
 
 

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