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Coluna do Chico Machado - A fé de um pagão



Por Chico Machado*


Segunda feira da Quarta Semana da Quaresma. A semana iniciando na caminhada que vamos fazendo em direção à Páscoa de Jesus e nossa. A Ressurreição é a porta de entrada para todos nós que abraçamos a fé, pois Ele mesmo nos assegurou: “vou preparar um lugar para vocês. E quando eu for e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e levarei vocês comigo, para que onde eu estiver, estejam vocês também”. (Jo 14,2-3) Ter fé é acreditar. Fé que não será em vão, pois assim como Ele Ressuscitou, teremos a possibilidade de com Ele também ressuscitarmos. Como bem disse São Paulo: “se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm”. (1 Cor 15,14)


Uma semana que inicia de forma muito triste para aqueles que lutam contra todas as formas de intolerância. Infelizmente uma triste notícia chegou até nós. Na madrugada do dia 19, uma Comunidade Tradicional Maranhense foi terrivelmente atacada. Suas casas foram incendiadas e destruídas. Após o ataque, promovido por terroristas armados, idosos e crianças ficaram ao relento. Os poucos alimentos foram saqueados. Toda a criação dos animais foi morta, inclusive os cachorros. Triste demais saber que vivemos numa sociedade que não respeita e não é capaz de conviver com o diferente. Como lutar pela igualdade se não sabemos respeitar o diferente? Como diria Augusto Cury: “O sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças”.


Outra notícia que também nos deixa indignados é a do deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) que tem trabalhado para aprovar no Congresso Nacional uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue o Ministério Público do Trabalho (MPT) e todas as demais cortes de Justiça trabalhistas, como as varas do Trabalho, os Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) e o Tribunal Superior do Trabalho (TST). Lembrando que é o MPT que fiscaliza, dentre outras coisas, o trabalho análogo a escravidão no Brasil. Como a monarquia foi extinta no Brasil em 1889, deveríamos deportar este “príncipe de araque”, descendente de imperadores, para que se junte às suas famílias em Portugal. Não os queremos mais por aqui! Chega do mal que nos fizeram com a sua colonização escravocrata.


Mas falemos de coisas boas. No dia de hoje a liturgia nos coloca em sintonia com mais um texto do evangelista São João. Desta vez, Jesus está na Galileia. Na periferia e distante do centro do poder. Mais precisamente num vilarejo chamado de Caná. Uma pequena vila ao norte de Nazaré onde, segundo a tradição, Jesus teria realizado o seu primeiro sinal (milagre), as bodas de Caná (Jo 2, 1-11), com a presença de sua Mãe Maria e seus discípulos. Esta é a cidade onde teria nascido o profeta Jonas e também o discípulo Natanael. É nesta cidade que Jesus vai averiguar uma grande demonstração de fé vinda de um pagão.


Jesus que não tinha problema algum em se relacionar e conviver com pecadores, publicanos, pobres, doentes e marginalizados. Gente da ralé. Também os pagãos tinham trânsito livre na relação com o Galileu, afinal, como Ele mesmo já havia dito: “Eu não fui enviado, senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. (Mt 15,24). Os pagãos reconhecem que Jesus não é só uma personalidade moral e religiosa, mas alguém que vem realizar um projeto concreto: constituir o povo de Deus na história. Talvez por este motivo que aquele funcionário real foi até Jesus para que este curasse o seu filho doente: “Senhor, desce, antes que meu filho morra! Jesus lhe disse: Podes ir, teu filho está vivo. O homem acreditou na palavra de Jesus e foi embora”. (Jo 4,49-50) Um homem de muita fé. Ainda sendo um pagão, dá mostras de ter uma fé inabalável, pois ele acreditou na palavra de Jesus e foi embora encontrar-se com o filho que estava plenamente curado.


Jesus no meio dos pagãos. Sua missão evangelizadora no meio dos mais necessitados em todos os sentidos. Uma missão que não fica circunscrita aos palácios ou aos “templos sagrados”. É na periferia que a coisa acontece. É de lá que vem a salvação planejada por Deus que Jesus vem dar cumprimento. Enquanto os judeus recusam e perseguem Jesus, os samaritanos e pagãos o acolhem. O fato de um pagão acreditar na palavra de Jesus e se converter juntamente com toda a sua família é uma prova de que a salvação é para todos, a começar pelas pessoas mais necessitadas. O mais interessante é que com esta experiência com um pagão, rompe-se aquela concepção de dependência entre a salvação e a lei, entre a fé e a instituição, pois a salvação é dom maior de Deus para todos aqueles e aquelas que se abrem gratuitamente a esta dádiva.


*Agente de pastoral da prelazia de São Félix do Araguaia.

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